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Sérgio Inglez de Souza – Enófilo, colunista e escritor
Texto publicado no Jornal Vinho & Cia de 11/04 a 08/05/2006, página 05.
No ano passado aconteceu em São Joaquim, Santa Catarina, um grande evento com a presença do Governador do Estado, quando foi constituída a Associação Catarinense dos Produtores de Vinhos Finos de Atitude – Acavitis, um grupo em que 37 associados estão distribuídos em manchas de vitivinicultura acima de 900 metros de altitude, numa grande área que abarca terras de São Joaquim, Campos Novos, Videira e Caçador.
Mas por que uma associação dos vinhos finos de altitude? O que esperar desses vinhos?
A altitude cria condições específicas de clima que pode contribuir positivamente no potencial de sua viticultura. A cada 100 metros que sobe acima do nível do mar, o ar perde 1% de seu carbono, o que representa dizer que nas manchas de altitude da Acavitis na média há cerca de 10 a 12% a menos desse elemento na sua atmosfera.
As folhas são usinas de fotossíntese que extraem o carbono do CO e CO2 da atmosfera, retido e utilizado para o crescimento da planta. As videiras na altitude da Acavitis têm, no bojo desta teoria, um processo vegetativo mais lento devido à menor carga de carbono disponível.
A pressão atmosférica menor e a maior proximidade do sol têm ação sobre a evaporação nas folhas, que eliminam mais água do que o normal, concentrando os nutrientes que vêm do solo e formando a seiva rica de alimentação das bagas de uva. A temperatura baixa durante a noite faz com que a respiração das folhas seja menor, economizando carbono.
A amplitude térmica propicia atividade forte durante o dia e descanso durante a noite. Na média, as atividades de vegetação e frutificação são mais lentas, o que implica em período mais longo de maturação da uva, com aumento da concentração dos polifenóis, que enriquecerão os aromas dos vinhos.
Mas, nem tudo soma no lado das vantagens. Há pontos negativos que devem ser contornados através de pesquisa e seleção das melhores práticas vitivinícolas. Nem todo lugar é um mar de rosas. Por isso mesmo, a Acavitis luta pela criação de um instituto técnico de apoio à vitivinicultura de altitude que, além de estudar soluções para os impasses, desenvolverá tecnologias apropriadas e formará mão-de-obra vinhateira ainda escassa naquelas paragens.
Dentro da associação cabeças perfeccionistas se esmeram na implantação de vinhedos adequados e na prática de colheitas comedidas, buscando o ponto de equilíbrio das videiras. Estão operando em torno de 6 a 8 toneladas por hectare, mas os estudos continuam.
Desde o primeiro vinhedo que foi formado pela Quinta da Neve, com Pinot Noir, Cabernet Sauvignon e outras castas clássicas, a área de vinhedos da Acavitis vem aumentando e, atualmente, somam de 300 hectares de vinhedos de alta qualidade, com castas viníferas clássicas.
Mas deixando os “entretantos” e partindo para os “finalmentes”, tivemos naquela degustação de onze vinhos de associados da Acavitis, alguns prontos, outros em experimentação, mas a imagem clara deixada pelo painel foi de uma incisiva qualidade na cor profunda e na potência aromática.
Não entrando em detalhes, eis a potência alcoólica natural, completamente equilibrada no corpo dos vinhos safra 2005: Sauvignon Blanc – 14%; Chardonnay – 13,2%; Pinot Noir – 12,7%; Sangiovese – 14%; Corte Cabernet Sauvignon + Malbec + Merlot + Nebbiolo – 14%; Corte Cabernet Sauvignon + Merlot – 13,5%; Tempranillo – 14,3%; Shiraz – 13,2%; Cabernet Sauvignon – 13,4%, Cabernet Sauvignon – 14% e Malbec – 13,6%.
Bem, hoje esperamos que os rótulos em lançamento no corrente ano – como o Villa Francioni, o GBM, o Panceri ou o Quinta da Neve – reafirmem esta vocação para a qualidade das vinhas de altitude. |